Em 1999, os irmãos diretores Andy e Larry Wachowski revolucionaram o mundo cinematográfico lançando o filme Matrix, um estrondoso sucesso de público e crítica que rendeu milhões em bilheterias, ganhou quatro prêmios Oscar e tornou-se um verdadeiro fenômeno cultural, originando mais duas continuações, jogos de videogame, histórias em quadrinhos, desenhos animados e livros, além de ter inspirado – pelo visual requintado e pelos efeitos especiais inovadores – toda uma geração de emergentes cineastas. O roteiro do longa-metragem está centrado em um grupo de personagens – onde se destacam Morpheus, Neo e Trinity – que, em um futuro pós-apocalíptico, lutam para libertar a humanidade do domínio de máquinas dotadas de sofisticada inteligência artificial que se mantêm ativas utilizando a energia vital dos corpos das pessoas como combustível e escravizando a mente dos seres humanos através de uma simulação computadorizada, que leva os indivíduos a acreditar que o mundo ilusório com o qual interagem é real.

Admitindo utilizar como principal fonte de inspiração o livro Simulacros e Simulação, do filósofo francês Jean Baudrillard, os irmãos Wachowski inseriram no enredo de sua obra inúmeras referências bíblicas, gnósticas, platônicas e cabalísticas – entre outras – o que a tornou um foco de interesse não só para apreciadores de cinema, como também para estudiosos e teóricos das mais diversas áreas. O que procuraremos evidenciar através desta peça de arquitetura é que, passados 15 anos de seu lançamento, a temática abordada em Matrix se mantém mais atual do que nunca, não no que se refere à belicosa tecnologia de inteligência artificial, mas sim na metáfora construída para demonstrar uma forma de domínio de uma minoria calcada na alienação da maioria e na consequente necessidade de se buscar a libertação desse sistema – fazer ressoar um chamado para despertar – papel que, por sua natureza, cabe muito bem aos “homens livres e de bons costumes”.

A imposição sistemática da alienação, que no Dicionário Aurélio é definida como o “estado da pessoa que, tendo sido educada em condições sociais determinadas, se submete cegamente aos valores e instituições dadas, perdendo assim a consciência de seus verdadeiros problemas”, provavelmente seja – ao lado do uso da força bruta – uma das mais antigas formas utilizadas pelos homens para governarem uns sobre os outros. Ao longo do tempo esta prática tem sido largamente empregada entre as mais diversas nações e nos mais diferentes contextos históricos e sociais com efeitos mais ou menos duradouros, mas sempre com graves prejuízos àquele que é um dos mais sagrados direitos humanos: o da liberdade. É possível propormos que o mais emblemático exemplo desse método seja o famoso pão e circo romano, onde a massa desprovida de instrução era incitada a passar grande parte do seu tempo nas arquibancadas de arenas e coliseus, assistindo os gladiadores se confrontar e consumir pão e vinho fornecido pelo Imperador, não se preocupando assim, em avaliar ou questionar as demais atitudes daqueles que governavam.

Como não poderia deixar de ser, é muito fácil traçar um paralelo entre o pão e circo do passado, a ilusão virtual do futuro hipotético e o nosso contexto atual. No Império Romano o pão era literal e o circo manchava de sangue escravo as areias das arenas lotadas; no futuro ficcional de Matrix, o circo é uma vida simulada em um programa computadorizado e o pão é uma grotesca substância derivada de cadáveres humanos; Atualmente – e focando especificamente na situação brasileira – o pão advêm de políticas arbitrárias e tendenciosas, destinadas a passar às massas a falsa impressão de que são priorizadas por boa fé, quando, na verdade, são apenas manobradas visando à obtenção dos votos necessários para a manutenção daqueles que já estão no poder. Quanto ao circo, nossas opções são muito mais amplas do que qualquer antigo romano poderia imaginar: temos carnaval, novelas, Big Brother, futebol e mais uma infinidade de distrações igualmente eficazes para manter as pessoas com os olhos atentos na televisão e com a mente distante da realidade. E aqui cabe uma ressalva, onde nos parece importante deixar claro que o problema não consiste nas distrações em si – pois o lazer também é uma necessidade de todos – mas sim, no domínio que a grande maioria dos indivíduos permite que tais distrações exerçam sobre suas vidas, levando-os a perder o foco daquilo que é verdadeiramente importante. Adiciona-se a isso um sistema público de ensino que parece pior a cada dia que passa, e pronto, estamos diante de mais um exemplo bem sucedido da supracitada alienação.

Felizmente, tão antiga quando as práticas de governo opressivas é a existência da resistência por parte de uma minoria de indivíduos que, cientes da realidade, lutaram – muitas vezes sacrificando suas próprias vidas – pela derrubada das estratégias manipuladoras e a implantação de sistemas mais justos e democráticos. É desnecessário elencar aqui as circunstâncias em que os maçons tomaram para si tal responsabilidade, até porque foram inúmeras, mas parece-nos extremamente importante relembrar que essa postura, mais do que um ato de altruísmo, é uma verdadeira obrigação por parte daqueles que juraram combater a ignorância e a tirania.

Em Matrix, na impossibilidade de salvar a todos, o personagem Morpheus selecionava alguns considerados mais aptos a contribuir com sua missão e lhes oferecia uma escolha representada por duas pílulas: uma azul, que se fosse ingerida manteria o indivíduo na mesma condição ilusória em que se encontrava, e outra vermelha, que, se aceita, provocaria no sujeito o seu despertar para a verdadeira realidade. Uma vez desperto, ele estaria livre, mas incumbido da tarefa de auxiliar na libertação dos demais.

Na trajetória maçônica há um paralelo muito claro com essa situação: determinados indivíduos, por sua conduta exemplar na sociedade, são escolhidos para integrar as colunas da Sublime Ordem e a eles é feito um convite, que inclusive se repete diversas vezes durante o Ritual de Iniciação. Se, por sua livre e espontânea vontade, reafirmarem seu interesse em ingressar na Maçonaria, a Iniciação é consumada com o mesmo efeito da ingestão da pílula vermelha, ou seja, seus olhos são desvendados para a luz da Verdade, possibilitando-os distinguir progressivamente – mediante estudo e assiduidade em Loja – as ilusões do mundo profano em contraposição dos nobres princípios e ideais maçônicos. Porém, nas palavras do Grande Mestre Iniciador, “a quem muito é dado, muito será cobrado” (Lucas 12:48), de tal forma que, ao receber o privilégio de ser encaminhado na senda da Verdade, passa a ser obrigação de todo maçom trabalhar pela edificação de uma sociedade justa e perfeita, sendo para isso indispensável libertar os menos afortunados da ilusão alienante em que se encontram submergidos.

Eis aqui o paradoxo e o paradigma de nosso tempo. O paradoxo consiste na irônica compreensão de que, se no passado as massas alienadas eram praticamente desprovidas do acesso à informação – que se restringia a uma diminuta elite letrada – atualmente há uma vastidão de informações ao alcance de todos, resultando o efeito alienante da dificuldade – muitas vezes imposta de forma dissimulada – em se distinguir o que é relevante do que é supérfluo, aquilo que é verídico daquilo que é inventado, exagerado, omitido ou distorcido por determinados veículos da grande mídia que muitas vezes não estão comprometidos com a verdade.
Dessa situação decorre o paradigma diante do qual nos encontramos, e que me parece conveniente denominar de Paradigma do Despertar. Obviamente, dadas às dimensões do problema, onde a corrupção nas mais diversas esferas da sociedade brasileira parece aumentar a níveis alarmantes – certamente com a cumplicidade de determinadas vias midiáticas igualmente corrompidas – sem que grande parcela da população se dê conta ou se importe com isso, parece-nos que cabe aos maçons, talvez com mais urgência do que em outros momentos do passado, trabalhar para auxiliar o despertar não só de novos Iniciados, mas de cada indivíduo menos esclarecido que cruzar o seu caminho.

Essa responsabilidade, que deve ser de todos, ganha especial importância no que se refere aos irmãos que se encontram na condição de potenciais formadores de opinião, como políticos, professores, jornalistas, líderes comunitários, integrantes de clubes de serviço e quaisquer outras atividades que os possibilitem serem ouvidos pelo maior número de pessoas possível. Porém, isso não exime os demais que atuam de diferentes maneiras, pois cada indivíduo – seja ele um vizinho, um familiar, um amigo ou um colega de trabalho – que for devidamente estimulado a refletir criticamente sobre a realidade que o cerca pode vir a se tornar um desperto, e como tal, mais apto a contribuir para a implantação de uma sociedade melhor e mais próxima do que almeja o ideal maçônico.

A tarefa é difícil, todos sabem disso, mas a hora de agir é agora. Não se pode mais viver apenas do culto aos grandes feitos da Maçonaria no passado e nem delegar tão somente a outros uma obrigação que é nossa também. O Grande Sábio muito bem ressaltou: “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontrem” (Mateus 7:13-14). Se fomos agraciados com a possibilidade de passar pela porta estreita, que sejamos solidários com os que não o fizeram e estendamos nossas mãos para auxiliar os que ainda podem transpassá-la. O velho clichê de que “o sucesso de nosso futuro depende do que construirmos no presente” é carregado de notável sabedoria e deve ser por nós lembrado não apenas no intuito de se vislumbrar no horizonte dias melhores para a vivência de nossas famílias, mas também pela possibilidade de, em algum momento, quiçá no fim de nossas trajetórias – no instante de galgar os últimos degraus da Escada de Jacó – possamos olhar ao redor e nos sentirmos felizes com o que vemos, e lembrarmos de que no passado atendemos ao chamado para despertar, honramos os compromissos aos quais juramos sobre o Livro da Lei e cumprimos com a missão que nos foi dada sob os desígnios edificadores do Grande Arquiteto do Universo.

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