“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”

(João 8:32)

Há muito tempo atrás existia um Rei, seus servos, soldados e uma guerra. Os tempos eram difíceis e a guerra se alastrava por toda a parte.

O Rei era um homem autoritário, rígido com seus inimigos e oponentes. Ele mandava seus servos capturarem seus opositores na guerra e trazerem para seu calabouço e depois ele ia pessoalmente conversar com eles.

O calabouço do Rei era cheio de corpos, esqueletos, era escuro, sem janelas, só tinha duas portas, a de entrada e outra que ninguém tinha coragem de abrir. Quando ele chegava para conversar com seus prisioneiros, ele mandava seus servos se retirarem e ficavam a sós. Para todos, ele sempre fazia a mesma observação:

‘Veja meu amigo, eu não sou uma má pessoa, faço isso porque estamos em tempo de guerra e ela muda as pessoas. E para provar que não sou de todo tão mal, vou te dar a chance de escolher entre duas opções. A primeira é você ser deixado aqui neste calabouço para morrer como os outros, e a segunda aquela porta. Essas eram as opções. Os prisioneiros olhavam para a porta e eram tomados pelo medo e sempre escolhiam a morte.

Os soldados, sempre curiosos, ficavam espiando o Rei conversar com seus prisioneiros para saber o que tinha naquela porta. Mas sempre sem sucesso, nunca descobririam dessa maneira. Até que um dia um soldado muito espantado com a escolha dos prisioneiros, resolveu perguntar ao Rei: – Meu senhor, posso fazer uma pergunta? O Rei respondeu:

– Diga, soldado. – O que tem atrás daquela porta que o senhor oferece como segunda opção para os prisioneiros? O Rei respondeu com uma só palavra: A liberdade! O soldado se assustou e tornou a perguntar: – A liberdade? Perdoe-me meu senhor, eu não entendi.

O Rei parou e explicou: – Isso mesmo soldado, a liberdade. Por trás daquela porta havia um campo cheio de flores, matas, florestas, um lugar em paz para se viver – Eu dava a eles a liberdade e eles preferiam morrer, que abrir aquela porta. Ninguém nunca tentou.

O soldado protestou: – Mas meu senhor, eles não escolhiam abrir a porta porque não sabiam o que tinha atrás dela. Talvez, se o senhor falasse a eles o que tinha, eles a escolhessem. O Rei sacudiu a cabeça e respondeu: – Não soldado, aí acabaria toda a graça. Como disse, eu dava a eles a liberdade, mas em troca teriam que enfrentar o medo e abri-la.”

Como é do conhecimento de todos os Amados Irmãos, um dos predicados exigidos do profano para o ingresso na Ordem é ser ele livre e de bons costumes. Não à toa, em um dado momento da cerimônia de iniciação, para justificar a esperança do “extraneus” em ser recebido como Maçom pelos Obreiros da Loja, é dito ser ele livre e de bons costumes.

Entretanto, necessariamente, várias indagações deveriam surgir na nossa mente nesse momento ritualístico: Será que um candidato, que ainda não recebeu a verdadeira luz, possui a condição de ser livre de fato? E mais: – Em que consiste efetivamente a liberdade? Será que aquele que ainda não tem o conhecimento pleno das coisas pode dizer ser realmente livre?

Cediço que ninguém nasceu para estar preso ou confinado. Tanto que a restrição da liberdade material é uma das formas mais comuns de castigo em nossa sociedade e uma das reprimendas adotada pelo Estado como meio de dissuadir seus integrantes a praticarem condutas ilícitas, notadamente as penalmente ilícitas. Ser livre, então, parece ser um desejo de todo ser humano. Mas será que a liberdade deve ser encarada somente como o exercício voluntário de ir e vir?

Zumbi, considerado o grande herói de Palmares, após ser libertado da escravidão, constituiu escravos para si, adotando postura diametralmente oposta àquilo contra o que lutava. Podemos considerá-lo como homem efetivamente livre, ainda que liberto das garras do seu senhor?

Diante desse exemplo tão nítido, muitas são as perguntas: A liberdade seria uma experiência da condição humana? Um valor que nos define ou um valor da nossa ação? Somos livres de verdade? Temos limites e o outro tem limites? Será que temos liberdade sobre nosso próprio corpo, nossos pensamentos e nossas ações na sociedade?

A bem da verdade, a liberdade é uma das grandes questões da humanidade. Seu conceito atravessa toda a história da filosofia e ganhou diversos significados ao longo dos tempos.

De acordo com o dicionário Houaiss, liberdade é o direito de expressar qualquer opinião, agir como quiser; independência. Ter licença ou permissão. É também a condição de não ser prisioneiro ou escravo. Desta feita, desdobra-se em diversos tipos: de pensamento, de opinião, política, religiosa etc. Todas essas variações tentam localizar nossas possíveis experiências de autonomia e de não dependência.

Para boa parte da tradição filosófica, a liberdade denota a ausência de servidão e estaria ligada principalmente à vontade, ao livre arbítrio, ao prazer de decidir. Ela seria vivenciada no interior do homem. Ou seja, liberdade é o nome que se dá ao fato de que temos autonomia para escolhermos nossos rumos.

Na Grécia Antiga, durante o período clássico, a liberdade era associada ao ato de pensar, de filosofar. A reflexão racional que o homem faz sobre seus desejos. Ser livre era ser mestre de si mesmo, ter domínio sobre suas ações.

Na Idade Média, a sociedade era teocêntrica e recebeu forte influência da Igreja Católica, que pregava que a natureza humana tinha sua vontade determinada por uma natureza superior. Pensadores cristãos buscaram refletir a relação entre liberdade e Deus. Assim, a concepção de liberdade tinha a ver com a elevação de espírito, a superação das tentações e dos pecados. Era livre o asceta, o sujeito que buscava a purificação e a oração.

O pensamento da Idade Moderna foi influenciado pelo Renascimento e pelo Iluminismo, que trouxeram uma nova visão e compreensão da realidade. A visão teológica é substituída por uma visão racional do indivíduo em sociedade.

A liberdade surge como um direito de cada um, na condição de cada sujeito e sua capacidade de ser dono do próprio destino. Assim, a liberdade era associada ao livre-arbítrio. O homem é livre na medida em que pode escolher fazer ou não alguma coisa sem ser coagido por força exterior.

Todavia, Nietzsche (1844-1900) acreditava existirem limites para o livre-arbítrio e que o homem não faz sempre o que quer. Para ele, nenhuma ação é totalmente livre porque a escolha ou o desejo de algo são condicionados aos limites impostos pela natureza, pelas regras e pelos eventos de uma sociedade, pelas relações de poder e pelas interpretações sobre o mundo.

O livre-arbítrio também esconderia uma vontade de dominação ou um mecanismo de controle do homem sobre a ação do outro. Exemplo: “Eu sou livre, ele tem de obedecer”. Não obstante, para Nietzsche, o verdadeiro homem livre supera a si mesmo, pratica uma espécie de “desapego” ou desconstrução de si. É um criador de novos valores, da força transmutada, da eternidade do tempo.

Após a Segunda Guerra Mundial, floresce o existencialismo. O filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980) disse: “estamos condenados a ser livres”. Essa frase traz a liberdade como possibilidade única da existência. Ele entende que somos livres para existir e construirmos nosso mundo interior a partir de escolhas. Elas seriam obrigatórias – mesmo se não quiser decidir algo, se escolheu não decidir. Na concepção de Sartre, o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio e, no entanto é livre. E uma vez lançado no mundo, seria responsável por tudo o que fizer. Essa liberdade traria uma angústia: a responsabilidade diante de seus atos e a exclusão das outras possibilidades não escolhidas.

Durante o século 20, ganhou cada vez mais espaço o conceito de “liberdade de expressão”, a garantia dada a um indivíduo de expressar as suas opiniões e crenças sem ser censurado. Assim, o debate público pode ter espaço para a individualidade. Apesar disso, a liberdade de expressão pode sofrer sanções quando a opinião ou crença tem o objetivo de discriminar uma pessoa ou grupo específico através de declarações injuriosas e difamatórias. Neste sentido, ganharia espaço o chamado comportamento “politicamente correto”, o que para alguns críticos, seria uma falta de liberdade. Para outros, um controle necessário para manter os limites da ética.

Fácil perceber, portanto, que o conceito de liberdade foi e está sendo edificado desde as épocas mais remotas, a cada etapa do desenvolvimento intelectual e espiritual do homem. Não há como negar a paridade no desenvolvimento de ambos: – conhecimento e liberdade.

À medida que somos dotados de novos conhecimentos intelectual e espiritual, novos horizontes são descortinados e nos possibilitam lançar olhares para além. Quanto mais conhecemos, temos a certeza de que mais temos a conhecer e como cada conhecimento agrega conteúdo aos conceitos que temos sobre as coisas, novas perspectivas se abrem em relação ao todo, nos libertando cada vez mais das amarras da involução, permitindo, assim, a tão sonhada evolução, a verdadeira salvação do ser humano.

Assim, amados irmãos, o conhecimento é que de fato liberta. Por isso cabe a nós, perscrutadores da verdade, buscarmos a cada dia angariar mais conhecimento e, principalmente, colocá-los em prática, interiorizando-os e deixando com que ele se expresse por meio de nossas condutas. Tornando-nos, assim, verdadeiros sábios. Afinal de contas, conhecedor é aquele que só conhece algo, mas o sábio é aquele que faz com que o conhecimento se torne força motriz de condutas boas. Portanto, não devemos nos portar como os prisioneiros da história inicial, mas, ao contrário, deixarmos de lado o medo do novo e buscarmos compreendê-lo, para, assim, ter acesso, tal qual no conto acima, aos campos cheios de flores, a um lugar em paz para se viver, que nada mais são do que a amplitude consciencial do eu e do todo.

Por isso, dentre todos os conceitos de liberdade estudados para esse presente trabalho, preferimos o metafísico e/ou altruísta de Frossard, segundo o qual a liberdade não consiste em fazer o que se tem vontade, mas também o que não se quereria, por bom senso, por respeito aos outros e muitas vezes por amor, primeiro princípio de tudo aquilo que é, foi ou será.

Essa liberdade ultrapassa todas as tendências, os gostos, o interesse pessoal, o egoísmo; vence tudo aquilo que efetivamente poderia condicionar o ser humano e refulge como um brilho magnífico na renúncia de si próprio em favor do outro ou dos outros. Tem por divisa o dom de si e, por insígnia, a cruz de Cristo. Nesse sentido, a liberdade é um combate. É o “nome de guerra” da caridade.

Num mundo tantas vezes dominado por uma visão utilitária e hedonista, Frossard rasga o generoso horizonte da autêntica liberdade. De fato, poucas ideias gozam, da parte dos homens em geral, de apreço tão imediato e universal quanto à liberdade, mas nem todos se aprofundam igualmente na sua essência.

Muitos se conformam com uma concepção superficial desse conceito: a liberdade sugere-lhes simples espontaneidade, ausência de compromissos, e isso já é suficiente. Na sua defesa da liberdade, contudo, Frossard não fica num conceito descomprometido, mas mergulha na raiz existencial da liberdade: o amor – amor a Deus e amor aos outros. A liberdade, para ele, tem uma vertente transcendental, uma orientação para Deus. Não é que a liberdade deixe de ser uma realidade humana para se tornar só ou principalmente um conceito de tipo religioso. Bem ao contrário.

Precisamente por dizer respeito a Deus e ao fim último da vida, essa concepção da liberdade é radicalmente humana. No seu exercício, a liberdade põe em jogo todas as facetas da vida do homem: a sensibilidade, as paixões, a racionalidade e a graça de Deus, se esse homem estiver aberto ao mundo da graça. E é essa riqueza de elementos que faz o ato livre, ser para quem sabe olhar com olhos de profundidade, algo único, incomparável por seu valor e por sua riqueza essencial.

Nesse sentido, a frase do maior mestre que já habitou o nosso orbe: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

E a Maçonaria, entendida não só como um sistema de moral exposto em símbolos e alegorias, mas notadamente, por ser, nos dizeres do Amado Irmão J. Gervásio de Figueiredo “uma autêntica escola de iniciação moral, cultural e espiritual, que prepara seus adeptos tanto para uma nobre vida terrena e social, como para entrar num alto e esclarecido estado de consciência em sua futura vida ultraterrena”, é um dos meios, que nós temos a graça de nos valer para obtermos esse sagrado conhecimento libertador.

O “medo” do novo, ou até mesmo a comodidade, torna o ser humano prisioneiro de si mesmo. A estagnação, sobretudo intelectual e espiritual, é a maior inimiga da evolução. É necessário, assim, que, tal qual uma lagarta se transforma em borboleta, nós Maçons façamos também nossa metamorfose intelectual e espiritual, e que partamos o casulo da ignorância por meio do conhecimento para, mais tarde, podermos experimentar a verdadeira liberdade ao lado do Criador.

Amados irmãos, que a Arte Real possa ser para cada um de nós a luz que nos faça sair do comodismo, libertando-nos, por meio do conhecimento intelectual e espiritual, da nossa masmorra consciencial. Sejamos nós os soldados que escolheram seguir adiante e que optaram pela porta do conhecimento convertido em sabedoria, e que conquistaram, ao final, a real liberdade.

Bibliografia:
http://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/filosofia-o-tema-da-liberdade.htm
– FROSSARD, André. Deus em questões. Editora Quadrante.
– Ritual Aprendiz Maçom. GOB
– LEADBEATER, C. W. São Paulo. Editora Biblioteca Maçônica Pensamento

Sobre o Autor

ARLS Trabalho em Perfeito Silêncio n° 2729 GOB/RO Oriente de Vilhena

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