Uma das maneiras mais eficazes de se aprender a discursar é ler discursos; discursos dos grandes oradores, dos grandes mestres da palavra, seja ela escrita ou falada, prestando atenção em como eles constroem suas belas frases, como despertam em nós sentimentos e emoções, como utilizam adequadamente as figuras de linguagem, tão importantes e essenciais ao brilho de seus pronunciamentos. Selecionamos, a seguir, o exemplo de um grande discurso. Leia-o atentamente, releia-o várias vezes, aprenda a apreciá-lo e descubra, a cada releitura, novas nuances e detalhes antes desapercebidos.

Pronunciado na cerimônia de inauguração do Monumento aos Descobridores, em Lisboa, no dia 9 de agosto de 1966.

“Volto-me para o passado e vejo que é o mar que se impõe como o grande caminho. O mar que palpita, ruge, clama e se encrespa. É o mar que constitui a base da glória de Portugal. Sulcando o mar, desafiando-o, apalpando-lhe as trevas e o mistério, o povo lusíada se impôs ao mundo. Vislumbro nesta hora, e diante deste monumento, o mar antigo, e, no mar, as caravelas que demandavam às ilhas remotas, os continentes desconhecidos.

Comove-me o espetáculo deste dia de hoje em que se encontram as duas pátrias, uma avançando pelo mar da História e outra, nascendo da aventura marítima, prêmio da audácia, da firmeza, do arrôjo, fruto daqueles conhecimentos técnicos que fizeram da escola de Sagres e da pátria portuguesa uma nação imperial, a estender seu poder por toda a parte.

Juscelino Kubitschek de Oliveira

Juscelino Kubitschek de Oliveira

Ontem era o mar. E, voltados para o mar de ontem, contemplamos as naves rumando ao desconhecido. Como é humano esse mar ainda prenhe de terrores, por onde vemos os pássaros de asas úmidas, palpitando apenas, ou arfando de angústia na conformidade dos ventos. Alguns desses pássaros que os marinheiros lusos conduzem dirigem-se para as Índias, outros procuram os portos já sabidos, outros, cegos e intrépidos, vão avançando pelas águas virgens, por caminhos nunca antes navegados. Vão temerários e loucos, vão possuídos pela ambição. Nunca lhes dera essa febre de grandeza, de deixar os fogos natais em procura da morte – como diziam as vozes da terra, o prantear das mães, das esposas, das namoradas, os conselhos dos antigos, para quem toda a aventura é condenável. Sabemos, porém, que o gosto pela aventura, o amor ao risco, o desejo viríl de possuir e fecundar as terras apenas supostas ou sonhadas, de dilatar a fé e o império, tudo isso arrastou, venceu, domou os enternecimentos provocados pelas súplicas…

Como nasceu e se tornou possível esse movimento, essa proeza, essa cultura criadora do novo mundo que teve como matéria prima o mar?

A coragem, a disposição do povo português para a aventura, a vocação marítima se deve em parte esse surto, essa epopéia.

Mas tal não bastaria para que uma nação demograficamente pequena se projetasse de forma gigantesca sobre o mundo. Não teria Portugal, só com as virtudes de seu povo, alcançado tantas glórias, se lhes houvesse faltado o conhecimento, a técnica náutica da época.

O triunfo de Sagres consistiu em dar os instrumentos, a lucidez, o raciocínio, a base científica ao ímpeto, ao desejo, ao apetite de conquista que faziam transbordar a alma de nossos avós comuns. O espírito de Sagres representou um espírito de vanguarda, de afirmação, de modernidade. E é por isso que Sagres sempre será para nós, e para todo o mundo ocidental, uma fonte perene de lições.

Esta hora não é mais do mar. O homem tenta, hoje, alcançar no espaço o que em sonhos duvidou. As primeiras naves aéreas anunciam os prodígios que talvez vejamos em breve, mas que nossos filhos certamente verão. É chegada a hora de atingir aqueles mundos que outrora serviam para indicar aos navegantes as suas rotas. A hora das grandes aventuras da navegação marítima passou, mas os feitos de seus heróis persistem, engrandecendo-se cada vez mais.

Quero, em nome do Brasil, afirmar que o povo brasileiro se orgulha dos feitos hoje rememorados. Temos glórias havidas e temos compromissos com o futuro. Exaltamos os heróis do passado sem declinar do dever de participar dos eventos futuros.

Nosso orgulho compreensível, nossa honra, nossos destinos nos obrigam a ser contemporâneos do mundo.

Saudando, em nome do Brasil, os ousados viajantes de outrora, saúdo os heróis do futuro.

Saudando os que devassaram os mares ignotos, saúdo os que procuram descortinar os céus desconhecidos.”

Sobre o Autor

Gr∴Secret∴ Assist∴ de Cultura e Educação Maçônicas do GOSP/GOB. Autor de: “O Livro do Orador”, editado pela Madras Editora.

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