Após as grandes descobertas, em meados do século XV, os oceanos tornaram-se palco de incontáveis rotas comerciais. Durante as travessias oceânicas, um dos maiores medos era, sem sombra de dúvidas, o naufrágio. Não é por acaso que o arquétipo do náufrago serviu a autores como Homero, Willian Shakespeare, Robert Stevenson e Daniel Defoe na construção de que histórias sempre seduziram o nosso imaginário.

Devido à imperícia de alguns capitães, o excesso de carga, ao desgaste natural das embarcações, às intempéries do tempo ou mesmo ao ataque de piratas, muitas naus afundaram durante os séculos XVIII e XIX. Talvez o ícone mais famoso de todos os tempos tenha sido o do marinheiro escocês Alexander Selkirk, cuja história inspirou a obra literária Robinson Crusoé. Entre essas trágicas histórias marinhas figura, ainda envolto em brumas misteriosas, a história do náufrago “maçom” Capitão W. H. Lang.

O Capitão Lang conduzia o baleeiro Modena de Serra Leoa, na África, em direção ao porto de Boston, nos Estados Unidos. O navio veio a pique no traiçoeiro triângulo das Bermudas. Segundo registros deixados pelo próprio capitão, ele e onze homens sobreviveram ao naufrágio nas águas das Bermudas, em 22 de Abril de 1873 e resistiram por duas mil milhas náuticas (cerca de 3700 quilômetros) ao longo da corrente do Golfo até a ilha das Flores, no extremo ocidental do arquipélago dos Açores. Esta ilha, com 141 quilômetros quadrados (na sua maior parte constituída por terreno montanhoso) era administrada pela Coroa Portuguesa desde o século XV.

Vale ressaltar que durante o clímax do naufrágio, até o momento que o sucede — quando os sobreviventes estão perdidos e necessitados — torna-se clara a desproporção entre as forças da natureza e a fragilidade humana. Uma vez sanadas essas dificuldades, duas preocupações passam a atormentar os náufragos: o medo do esquecimento e a esperança de voltar à civilização. Talvez tenham sido essas as preocupações que levaram o Capitão Lang a fazer a seguinte inscrição na pedra:

CAPT. W. H. LANG
AND 11 MEN
LANDED MAY 5 73
FROM BARK MODENA
OF BOSTON MASS. FOUNDERD
APRIL 22

Isolados, os náufragos tentam reordenar e reorganizar suas referências no ambiente selvagem. É importante destacar que o Capitão Lang registrou, junto ao nome da embarcação, da data, e de seu próprio nome, algo muito semelhante ao “esquadro e o compasso” maçônicos. Mesmo em um ambiente inóspito, a Maçonaria figurou como uma importante referência para o Capitão.

Esse documento entalhado na pedra, descoberto apenas em 1960, faz parte da cultura material da ilha das Flores e ainda desperta inúmeras especulações acerca dos símbolos ali representados. A data, o nome, e a função são importantes apontamentos para os historiadores que, através dos registros de iniciação em Lojas Maçônicas americanas (em particular na cidade de Boston), possam sanar a dúvida: seria o capitão W. H. Lang um maçom? Essa possibilidade é extremamente plausível, uma vez que a maçonaria encontrava-se amplamente difundida entre os americanos desde o século XVIII. Se considerarmos essa possibilidade, a inferência ao “esquadro e o compasso” demonstram a força da Maçonaria como vetor de sociabilidade, potencializando, inclusive, o salvamento de irmãos náufragos.

Tal como a “Pedra de Roseta” ajudou a desvendar os mistérios do Egito Antigo, a “Pedra do Capitão Lang”, como é conhecido este marco, deve fornecer importantes informações de mais um nebuloso acontecimento envolvendo a maçonaria.

Bibliografia:

– BRITO, Bernardo Gomes de. História Trágico-Marítima (1736).
Rio de Janeiro: Lacerda Editores: Contraponto Editora, 1998.
– GOMES, Francisco António Nunes Pimentel, A Ilha das Flores:
Da redescoberta à actualidade (Subsídios para a sua História),
Câmara Municipal das Lajes das Flores: 1997.

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