Introdução
José Saramago conta que, em um determinado país, a morte suspendeu suas atividades. O que de início parecia algo positivo tornou-se um problema. A falta de falecimentos logo se revela um problema, e não só para as agências funerárias. Os hospitais ficam lotados de pacientes agonizantes impedidos de “passar desta para melhor”. E os idosos avançam na decrepitude sem esperança de descanso (nem para eles, nem para as suas famílias). O primeiro-ministro teme uma crise. O cardeal antevê o pior. A saída foi implorar para que a morte voltasse a agir. Ele denominou esse fenômeno ficcional de “as intermitências da morte” em obra com o mesmo título.

A Maçonaria moderna presenciou, desde seu início em 1717, um ambiente social adverso que só teve trégua nas intermitências da Antimaçonaria. Movimento onipresente desde o século XVIII, a Antimaçonaria começou tímida, mas apresentando um crescimento aritmético, com suspeitas levantadas de que o juramento e o segredo maçônicos seriam contrários aos costumes e à organização social. A Igreja se encarregou de multiplicar exponencialmente, de forma geométrica, essas suspeitas, acrescentando motivos religiosos, culminando com as condenações pontifícias de Clemente XII e Bento XIV no mesmo século das Luzes. Nos séculos seguintes, a Antimaçonaria se valeu de outros instrumentos, atribuindo aos maçons até um complô universal para dominar o mundo.

Não obstante, os postulados, a doutrina e a filosofia permitiram que o contributo maçônico ultrapassasse todos os obstáculos e o número de obreiros se multiplicasse de tal forma que os antídotos aplicados contra os contras os imobilizou momentaneamente.

É desse ponto de vista paradoxal que se pretende analisar “a Fraternidade como fator de crescimento e consolidação social da Maçonaria”.
Inicialmente, no Capítulo I, serão expostos a doutrina, a filosofia e os postulados que fizeram da Maçonaria uma instituição consonante com as ideias do Iluminismo, com destaque para a trilogia Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e que a habilitou a transitar em todo o século XVIII e seguintes sem desmoronar diante de grupos de pressão antagônicos.

Ultrapassados os meandros dos conceitos e definições, continuar-se-á, no Capítulo II, a singrar as correntes cheias de obstáculos à Ordem que são as invectivas da Antimaçonaria. No Capítulo III, cuidar-se-á de expor a perenidade da instituição maçônica alicerçada na Fraternidade, virtude máxima dos iniciados, que contribuiu e continua contribuindo para a solidificação dos ideais maçônicos num mundo tão conturbado pelo desamor.
Ao final, à guisa de Conclusão, partiremos da interrogação: Qual a contribuição da Maçonaria para tornar mais fraterna a Humanidade neste século XXI?

Capítulo I
A doutrina, a filosofia e os postulados maçônicos

Os defensores da escola autêntica da Maçonaria – aquela que só baseia suas análises em documentos – estão sempre a recordar que os primeiros historiadores da Ordem inventaram lendas sobre sua origem para lhe dar um ar de nobreza. Por convenção, adotam o ano de 1717 como data do nascimento da Maçonaria moderna com a fundação da Grande Loja da Inglaterra.

De forma bastante radical, J. M. Roberts afirma que muitas instituições e ideias que moldaram a sociedade ocidental, e portanto o mundo desde então, foram cristalizadas primeiro no século XVIII. Acrescenta, em seguida, que algumas das invenções sociais mais extraordinárias surgidas nessa época foram as sociedades secretas, destacando que, em larga medida, a mais importante dessas sociedades foi a Maçonaria.

José Antônio Ferrer-Benimeli defende que a partir da passagem da Maçonaria Operativa à Especulativa, período que ele situa entre 1670 e 1716, a Ordem transformou-se em uma instituição cuja característica era a obtenção de uma finalidade ética, suscetível de se propagar em todos os povos civilizados.
Assim, a partir de 1717, com a criação da Grande Loja da Inglaterra, começou-se a se delinear um conjunto doutrinário maçônico que recebeu conteúdo formal com a publicação, em 1723, da primeira edição das Constituições dos Franco-Maçons, mais conhecida como Constituições de Anderson.

Deve-se lembrar que nessa época, o Século das Luzes, estava tomando corpo uma nova teoria do conhecimento: uma ordem do mundo que não é mais dada, e sim construída. Trata-se do Humanismo.

Nesse ambiente, observa-se nas Constituições de Anderson tanto imposições políticas em suas entrelinhas, como também explícitos ditames de comportamento ético.
Mais importante para uma análise do cerne da doutrina, onde encontramos a base da fraternidade maçônica, é ressaltar os tópicos das Constituições que tratam das Obrigações de um Franco-Maçom e dos Regulamentos Gerais.

Ferrer-Benimeli soube apreciar com propriedade os indicativos de que a Maçonaria estava se preparando para a busca de uma sociedade melhor e mais fraterna:
“Quando comparamos o que sabemos dos construtores de catedrais e de suas tradições corporativas, e o que as constituições de Anderson conservaram para novos fins, fica fácil presumir as razões que levaram Anderson, Desaguliers e seus contemporâneos a utilizar a Loja, suas fórmulas e suas tradições. Eles buscaram na Maçonaria o local de encontro de homens de uma certa cultura, com inquietações intelectuais, interessados no humanismo como fraternidade, acima das separações e das oposições sectárias que haviam provocado tantos sofrimentos na Europa, a Reforma de um lado e a Contrarreforma de outro. Eles estavam imbuídos pelo desejo de se encontrar em uma atmosfera de tolerância e de fraternidade. O artigo fundamental das constituições de 1723 sublinha isso claramente. Eis o que o mesmo diz: ‘Todo maçom é obrigado, em virtude de seu título, a obedecer a lei moral. E, como compreende bem a Arte, ele jamais será nem um ateu estúpido nem um ímpio libertino. Da mesma maneira que, nos tempos passados, os maçons eram obrigados, em cada país, a professar a religião de sua pátria ou nação, qualquer que ela fosse, nos tempos atuais nos pareceu mais adequado não obrigar além dessa religião na qual todos os homens estão de acordo, deixando cada um livre para ter sua opinião própria. A mesma consiste em serem homens bons e verdadeiros, homens de honra e probidade, quaisquer que sejam a denominação ou as crenças pelas quais possam se distinguir. De onde segue que a Maçonaria é o Centro de União e o meio de suscitar a verdadeira amizade entre as pessoas. Sem ela, permaneceriam em um perpétuo distanciamento’.”

Sendo assim, conclui Benimeli, “a Maçonaria quis ser, desde suas origens, uma reunião, acima das divisões políticas e religiosas do mundo, de homens que acreditavam em Deus, respeitavam a moral natural e queriam se conhecer e trabalhar juntos, apesar da diversidade de suas opiniões religiosas e sua filiação a confissões ou partidos mais ou menos opostos”.

Atualmente, costuma-se definir a Maçonaria como uma instituição essencialmente iniciática, filosófica, filantrópica, progressista e evolucionista, cujos fins supremos são a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.

Para atingir esses fins, a Ordem maçônica conta com um corpo doutrinário acumulado desde o século XVIII. Apresenta-se a seguir uma síntese atual da doutrina maçônica insculpida na Constituição do Grande Oriente do Brasil. Assim, a Maçonaria:

I – proclama a prevalência do espírito sobre a matéria;
II – pugna pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e social da humanidade, por meio do cumprimento inflexível do dever, da prática desinteressada da beneficência e da investigação constante da verdade;
III – proclama que os homens são livres e iguais em direitos e que a tolerância constitui o princípio cardeal nas relações humanas, para que sejam respeitadas as convicções e a dignidade de cada um;
IV – defende a plena liberdade de expressão do pensamento, como direito fundamental do ser humano, observada correlata responsabilidade;
V – reconhece o trabalho como dever social e direito inalienável;
VI – considera Irmãos todos os Maçons, quaisquer que sejam suas raças, nacionalidades, convicções ou crenças;
VII – sustenta que os Maçons têm os seguintes deveres essenciais: amor à família, fidelidade e devotamento à Pátria e obediência à lei;
VIII – determina que os Maçons estendam e liberalizem os laços fraternais que os unem a todos os homens esparsos pela superfície da terra;
IX – recomenda a divulgação de sua doutrina pelo exemplo e pela palavra e combate, terminantemente, o recurso à força e à violência para a consecução de quaisquer objetivos;
X – adota sinais e emblemas de elevada significação simbólica;
XI – defende que nenhum Maçom seja obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;
XII – condena a exploração do homem, os privilégios e as regalias, enaltecendo, porém, o mérito da inteligência e da virtude, bem como o valor demonstrado na prestação de serviços à Ordem, à Pátria e à Humanidade;
XIII – afirma que os sectarismos político, religioso e racial são incompatíveis com a universalidade do espírito maçônico; e
XIV – combate a ignorância, a superstição e a tirania.

Extraídos dessa doutrina, a Instituição maçônica defende hoje postulados universais, tais como:
– A existência de um princípio criador a que denomina Grande Arquiteto do Universo;
– O simbolismo da Maçonaria Universal; e
– A proibição de discussão ou controvérsias sobre matéria político-partidária, religiosa e racial, dentro dos templos ou fora deles, em seu nome.
O que se nos apresenta hoje como algo positivo e natural, foi o que, já a partir do século XVIII, motivou a perseguição implacável da Ordem maçônica. Naquela época, defender a liberdade de expressão, a igualdade entre todos os homens e a fraternidade a despeito de diferenças sociais soava como subversão e heresia. Esse é o aspecto que será abordado no próximo capítulo.

Capítulo II
As invectivas da Antimaçonaria

Desde o surgimento da Maçonaria moderna, no início do século XVIII, a antimaçonaria é uma constante. Antes das condenações pontifícias, iniciadas em 1738, grupos de pressão antagônicos tomaram corpo em diversos países da Europa para, depois, se espalhar por todo o mundo.

Inicialmente, o segredo e o juramento maçônicos se constituíram em tábula rasa das alegações para se buscar a extinção da Ordem maçônica. Os prelados, de início individualmente, e posteriormente a Igreja como instituição acrescentaram razões de Estado do tipo religioso para incluir a Maçonaria no crime de heresia, principalmente pelo fato de admitir nas Lojas indivíduos de diversas religiões, fato que no passado tinha uma valorização muito diferente daquela que teria em nossos dias.

No primeiro item da conclusão do seu volumoso estudo sobre a Maçonaria, Benimeli faz uma relação das principais condenações da Ordem no século XVIII, começando por autoridades seculares antes de analisar as condenações religiosas.

Dando continuidade à sua análise, Benimeli acrescenta que “as condenações e proibições de Clemente XII em 1738 e de Bento XIV em 1751, e também o decreto do cardeal Firrao para os Estados Pontifícios, em 1739, são apenas elos na longa corrente das medidas tomadas pelas autoridades que no século XVIII regeram os destinos da Europa”.

Em todos esses casos, a Maçonaria é atacada e punida simplesmente por ser uma instituição que abraçou o Humanismo e uma nova concepção de ver o mundo pela ótica iluminista.

Com o acréscimo de razões religiosas, Clemente XII e Bento XIV seguiram os mesmos argumentos superficiais utilizados por todos os grupos antimaçônicos, alegando invariavelmente que as reuniões maçônicas não eram apenas suspeitas de heresia, mas principalmente perigosas para a tranquilidade e para a segurança do Estado fosse ele secular ou eclesiástico.

Em seu livro Antimaçonaria e os Movimentos Fundamentalistas do fim do século XX, o Irmão Descartes de Souza Teixeira estende os estudos de Benimeli para a época contemporânea. Para além do século XVIII, Teixeira traz considerações significativas sobre o movimento antimaçônico no cenário sócio-político dos Estados Unidos, sobre a Frente Antimaçônica da primeira metade do século XX e a Nova Ordem Antimaçônica e o Movimento Neofundamentalista.

Foi nesse contexto que se chegou ao extremo de se produzir um documento falso que trouxe consequências desastrosas para um povo, os Judeus, e para os Franco-Maçons, apontados como aliados dos primeiros num processo para dominar o mundo. Esse documento recebeu o nome de Protocolos dos Sábios de Sião.

Poucos estudiosos atentam para a inclusão dos maçons nesse que seria o plano mais audacioso de tomada do poder mundial.

Hitler, em sua ascensão ao poder soube capitalizar as ideias contidas nos Protocolos constituindo um dos argumentos mais eficazes para convencer os alemães a exterminarem os judeus e, por extensão, os maçons da sociedade mundial.

No Brasil, o nacionalista Gustavo Barroso encarregou-se de divulgar, na década de 1930, como se verdade fosse Os Protocolos dos Sábios de Sião em forma de livro comentado.

Will Eisner, um dos maiores autores de quadrinhos do século XX, usou a sua técnica de escrita, que é uma verdadeira arte, para desmascarar a farsa criada no final do século XIX para difamar o povo judeu e os maçons. Em sua obra O Complô ele reconstitui toda a história secreta dos Protocolos indicando todos os personagens reais da trama que visou desconstruir e até exterminar um povo.

Através dos escritos de Eisner, fica-se sabendo como um diplomata russo fez uma compilação grosseira da obra de Maurice Joly – Diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu – transformando-a nos famosos e falsos Protocolos.
J. M. Roberts, em seu livro A mitologia das Sociedades Secretas, considera os Protocolos como um dos atos mais atrozes promovido pelo ser humano contra um povo e uma sociedade secreta. Não se pode descuidar da Antimaçonaria atribuindo-a a grupos radicais do passado. Na atualidade ela se faz presente, muitas vezes abertamente, outras de forma sub-reptícia.

Capítulo III
A perenidade da instituição maçônica
Em seu Dicionário de Maçonaria, Joaquim Gervásio de Figueiredo defende que talvez fosse mais natural na maçonaria a inversão do trinômio Liberdade, Igualdade e Fraternidade, pois numa sociedade antes de tudo fraternal todos os seus membros serão livres e iguais perante a lei.

Os mesmos instrumentos utilizados pela Antimaçonaria para denegrir a imagem da Maçonaria serviram para torna-la perene num mundo carente de instituições baseadas em princípios éticos e embasadas por um corpo doutrinário fundamentado nos sãos princípios da moral e da razão.

A primeira constatação que se faz a esse respeito é a presença contínua de religiosos nos Quadros de Obreiros de inúmeras Lojas maçônicas em toda a parte do mundo desde a fundação da Ordem. No último capítulo do seu Arquivos Secretos do Vaticano e a Franco-Maçonaria, Benimeli assinala que “na realidade, essa atitude de colaboração entre as Lojas e o clero de suas paróquias não é estranha, nem mesmo paradoxal, se imaginarmos que era raro uma Loja não contar com algum eclesiástico entre seus membros”.

Benimeli se encarrega de demonstrar o sentido religioso da Maçonaria no século XVIII e testemunha a presença católica nas Lojas. Entre as ações da Maçonaria em conjunto com a Igreja, aquele autor jesuíta destaca as celebrações de festas patronais, serviços fúnebres maçônicos e a benemerência maçônica, além de obrigações assumidas por clérigos fundadores de Lojas e eleitos para o cargo de Venerável Mestre.

O referido autor chega à conclusão que “os gestos de fraternidade nesse sentido eram fecundos e serviam para estreitar os laços que uniam os membros da mesma Loja, que sabia compartilhar as alegrias e as dores dos seus”.

O arremate final da análise de Benimeli merece ser transcrito in verbis:
“Nesse estado de coisas é compreensível que uma doutrina que pregava a tolerância, a fraternidade, a igualdade e a liberdade; que rejeitava, ao mesmo tempo, tudo o que pudesse dividir os espíritos, a saber, a política e as discussões religiosas; que possuía, além do mais, uma variedade de graus que afagava a vaidade humana; e que, a tudo isso, juntava o encanto do segredo e do maravilhoso, tenha exercido um poder de influência sobre o clero que, logicamente, havia dedicado sua vida a muitos desses ideais contidos na doutrina evangélica.”

Além disso, é pertinente assinalar que a doutrina maçônica decorreu dos mais nobres princípios do Humanismo, que na esteira do Século das Luzes estendeu para todo o mundo civilizado e para além no tempo ideias de autodeterminação dos povos que se encarregaram de pôr fim ao Antigo Regime francês, ao Absolutismo na Europa e levantar objetivos libertadores em diversos outros países do Velho Continente e das Américas, incluindo o Brasil.

Em sua obra A ação secreta da Maçonaria na política mundial, José Castellani constata que a força dessa onda libertadora contribuiu para a ascensão de Catarina, a Grande, ao Trono da Rússia, para fazer a Revolução Francesa, anunciar a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, promover a Independência dos Estados Unidos da América e definir a luta pela extinção da escravatura.

No Brasil, os Franco-Maçons ousaram pensar a liberdade e deram o Grito da Independência. Quase setenta anos após, lutaram pela igualdade e conseguiram a Abolição da Escravatura. Logo em seguida, em 1889, proclamaram a tão sonhada República, num exemplo de postura fraterna que se fez onipresente em todos os períodos governamentais da Primeira República.

Entretanto, o último bastião a se render à Fraternidade e às ideias humanistas foi a Igreja. Mas o Papa João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II – concluído no pontificado de Paulo VI -, enfrentou toda resistência dos cardeais conservadores para anunciar ao mundo a aceitação do ecumenismo pela doutrina católica.

É claro que o Concílio Vaticano II deu novos ares à luta da Maçonaria por um mundo ecumênico e mais fraterno.
Relembro aqui um ponto de vista defendido por Luc Ferry, no seu livro Aprender a Viver, em que o autor francês nos ensina que “para todo indivíduo, é valioso estudar ao menos um pouco de filosofia, nem que seja por dois motivos bem simples. O primeiro é que, sem ela, nada poderemos compreender do mundo em que vivemos. Além do que se ganha em compreensão, conhecimento de si e dos outros por intermédio das grandes obras da tradição, é preciso saber que elas podem simplesmente ajudar a viver melhor e mais livremente”.

Nessa obra, Luc Ferry já apresentava uma teoria rumo a um pensamento inédito da transcendência em busca de uma moral fundada na sacralização de outrem pela prática do amor. Mas recentemente, Ferry lançou um novo estudo filosófico, A Revolução do Amor, onde defende uma espiritualidade laica baseada no humanismo, na ética e em novas dimensões do relacionamento humano, para além das filosofias desconstrucionistas.

Ferry defende que pela primeira vez na história o amor está se tornando “o princípio fundador de uma nova visão do mundo, a verdadeira fonte de recuperação do sentido e que hoje reorganiza os valores que alimentaram a civilização europeia moderna”.

O filósofo francês aponta que “vivemos um momento de refundação que não se assemelha a nenhum outro, um desses períodos raros e preciosos em que precisamos descobrir, ou mesmo inventar, uma nova visão do mundo que abranja todos os campos de existência humana, do conhecimento teórico à ética, da metafísica à política, passando pela vida cotidiana”. Em síntese, uma espécie de revolução que, em lugar dos princípios fundadores antigos, faz do amor, da amizade, da fraternidade o novo patamar de nossos valores e o coloca no centro de nossas preocupações.
A Revolução do Amor, proposta por Luc Ferry, vem ao encontro do princípio basilar da doutrina maçônica, que é a Fraternidade. As duas virtudes se complementam. Uma depende da outra. Só se pode fazer uma Revolução do Amor em uma sociedade baseada na Fraternidade.

Conclusão
O grande desafio da Maçonaria neste século XXI é resO grande desafio da Maçonaria neste século XXI é respeitar suas tradições, sua doutrina e seus postulados, adaptando-os aos tempos atuais. A humanidade percorre a sua senda por meio de erros e acertos. A Maçonaria, que representa uma parcela da humanidade, traça caminhos semelhantes. O futuro, da humanidade e da Maçonaria, está relacionado à equação erro/acerto. O sucesso estará garantido se ambas acertarem mais do que errarem.

Para isso, é necessário resgatar a perseverança dos maçons antepassados no combate à intolerância, aos preconceitos e aos erros, sempre dedicados a construir templos à virtude e cavar masmorras ao vício.

É bom lembrar que um dos princípios basilares da Maçonaria pugna pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e social da humanidade, por meio do cumprimento inflexível do dever, da prática desinteressada da beneficência e da investigação constante da verdade. Tal assertiva é complementada com a recomendação de que a divulgação de sua doutrina deve ser pelo exemplo e pela palavra e que a Ordem maçônica combate, terminantemente, o recurso à força e à violência para a consecução de quaisquer objetivos.

Observa-se em algumas ocasiões que membros da Ordem, premidos pelo caos que impera na sociedade contemporânea, pleiteiam a tomada de posição radical da Maçonaria diante das arbitrariedades contra o povo, sugerindo inclusive a participação ativa da instituição em movimentos sociais.
Tradicionalmente, a filosofia maçônica orienta a preparação do iniciado Maçom por meio da educação doutrinária com vistas a aplicar seus conhecimentos na sociedade, mas de modo pacífico, evolucionista e progressista.
Assim, é necessário encontrar uma fórmula atual de inserção na sociedade que permita a Maçonaria promover mudanças para um mundo melhor, partindo da aplicação dos postulados maçônicos, sem o recurso à força e à violência. Cabe ao Maçom, como membro de um grupo de formadores de opinião no seio da sociedade, dar o exemplo.
Nessa senda filosófica, deve-se eleger a Fraternidade e permitir-se uma revolução que tenha o Amor como princípio. Essa revolução permitirá o respeito às tradições, a derrubada dos muros antimaçônicos e a construção de uma sociedade mais igualitária e mais livre.

Fugindo à regra da metodologia, faz-se referência a dois pensadores que nortearam a pesquisa para elaboração do presente trabalho e que demonstram a necessidade perene da Fraternidade maçônica nesse mundo conflituoso: Primeiro Luc Ferry, que conclui A Revolução do Amor afirmando que:

“Sem dúvida, nossas crianças ainda conhecerão guerras motivadas pelo fanatismo e pelo fundamentalismo. Todavia, não é nem o egoísmo nem a busca cega dos interesses que poderão salvar o mundo, mas a lógica da fraternidade e da ajuda mútua, do prazer de dar, mais do que de tomar.”

Por último, José Antônio Ferrer-Benimeli que, com sua visão voltada para o amanhã, chega a uma conclusão magistral:
“O mais belo futuro que poderia ser oferecido à Franco-Maçonaria seria que ela desaparecesse por não ter mais razão de ser. Pois isso significaria, então, dizer que todos os seres humanos responderam sem restrição alguma ao ideal de Fraternidade e de Tolerância, vivendo em ‘Fé, Esperança e Caridade’, e que o Templo simbólico da Humanidade estaria terminado.”

BIBLIOGRAFIA

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– TOBIN, Greg. O Bom Papa: criação de um santo e recriação da Igreja – A história de João XXIII e do Concílio Vaticano II. Parede, Portugal: Lucerna, 2014.

Sobre o Autor

ARLS Antônio Francisco Lisboa nº 3793 GODF/GOB Oriente de Brasília Membro ativo do Mui Poderoso Consistório de Príncipes do Real Segredo nº 50.016 – Brasília/DF

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