Nos dias atuais é frequente a exposição de fotos de Irmãos, de templos, de símbolos e de alegorias maçônicas nas mídias sociais e internet em geral. Todavia, uma vez que a Maçonaria é seletiva (o que não significa ser exclusivista), qual a relevância dessa divulgação para o grande público para quem não é componente da Diretoria de sua Loja ou da Obediência maçônica à qual pertence, não é vendedor de artigos maçônicos, ou por quem não se propõe a criar um espaço de reflexão sobre a práxis maçônica?

Interessa aos profanos (pro = ante + fanum = templo, ou seja, não iniciado), o Irmão apresentar-se todo paramentado só por assim estar, se muitos daqueles não poderão cruzar os umbrais, seja por inépcia, seja por não conhecer um Maçom que possa convidá-lo, ou seja, pelo fato do “maçom” (com aspas mesmo) não desejar convidá-lo, mesmo quando consegue perceber naquele as características necessárias a um Obreiro útil e dedicado?

Por oportuno, importante advertir que não é necessário ser um erudito para apreender os ensinamentos e fins maçônicos, ou seja, é pela porta do coração que se alcança a Paz Profunda dos rosacruzes, atinge-se a Pedra Cúbica de nossos mistérios, que se chega à almejada iluminação das tradições orientais. E nossos ensinamentos, ad initium, deixam isso bem claro, verdade válida para todas as ordens iniciáticas tradicionais. Prova disso, é o caso de Jacob Boehme (1575-1624), o sapateiro de Gorlitz e com instrução básica, cujas obras misticamente inspiradas influenciaram o pietismo alemão, os quakers ingleses e toda a geração romântica, razão por que Hegel o considerou o primeiro autêntico filósofo germânico.

Voltando ao foco, qual seria o objetivo então dessa exposição nas mídias sociais? Analisando o problema linguístico (indicadora da função geral da comunicação), Mondin (2006, p. 50) apresenta uma explicação que se adéqua bastante ao caso, pela qual se pode chegar à conclusão de que o indivíduo usa a imagem para a profusão e manutenção do próprio nome. Segundo o filósofo:

É um fato que o nome é sempre o sustentáculo da própria presença. Em toda parte em que o nome de uma pessoa é conhecido, pronunciado, recordado, realiza-se sua presença intencional junto dos outros e assim é satisfeito, de alguma forma, aquele desejo de ubiquidade que está no íntimo de todo homem. Mas, além de superar os limites espaciais, o nome nos permite ainda galgar os confins do tempo: a nossa presença continua a perdurar mesmo depois da morte, enquanto permanecer viva a lembrança de nosso nome. Isso explica o desejo que todos nós temos de que nosso nome se torne famoso, adquira notoriedade: desse modo queremos garantir-nos uma certa eternidade.

Porém, a exposição da imagem e do nome está sujeita a riscos e nesse sentido Barbotin (apud MONDIN, 2006, p. 49) assevera que “Entretanto, se o meu nome me expressa aos outros, ao mesmo tempo me entrega a eles, coloca-me em seu poder. Declarando meu nome, renuncio em parte minha autonomia; então os outros me dominam e me possuem”.
E no caso dos Maçons, a exposição dá azo à pergunta, por parte dos profanos: a que isso (a exposição) se destina? “Vaidade das vaidades” (Ec 1, 2), diz o pregador. Em verdade, todo ser humano possui um pouco de vaidade, da necessidade de reconhecimento social, afinal, por sua natureza gregária, o homem é o reflexo do que seus semelhantes, dele pensam. Assim, não há mal em publicações comedidas e voltadas para Maçons (“Brother to Brother”), salvo aquelas que visem esclarecer os não iniciados quanto aos fins da Ordem (e que geralmente são produzidas pelos órgãos de publicação oficiais de cada Potência). Em suas ações pessoais de divulgação, todavia, os Irmãos devem procurar o correto equilíbrio, para não incorrer na jactância exacerbada (Rm 3, 27) e não descumprir o dever solene de vencer as paixões.

Quando o Maçom se expõe nas mídias sociais, ele permite que o público se indague sobre a função do Obreiro enquanto tal no contexto da comunidade. E daí pode-se ir mais além e questionar então se a Maçonaria tem uma função social.

Para tanto, mister se faz definir o que seja função social, a saber, a contribuição que um fenômeno provê a um sistema maior do que aquele ao qual o fenômeno faz parte, in casu, busca-se então detectar e mensurar a relevância da sublime Ordem no seio da sociedade. Há uma expectativa para o papel social exercido pelos Maçons por aqueles que estão na sociedade e interagem o tempo todo através das relações sociais, sobremaneira agora que a instituição é mais discreta que secreta.

Na busca da ansiada resposta, recorra-se à Constituição do Grande Oriente do Brasil, Potência Simbólica mais antiga do país, que em seu art. 1º, inciso II preceitua que um dos fins da Ordem é “o aperfeiçoamento moral, intelectual e social da humanidade”, o que analogamente é repetido nas constituições de outras Potências nacionais.

Continuando a leitura do já citado inciso II, art. 1º da Constituição do GOB, o aprimoramento da sociedade se dará “por meio do cumprimento inflexível do dever, da prática desinteressada da beneficência e da investigação constante da verdade;”. Assim, o Grande Oriente considera a filantropia não uma consequência do aperfeiçoamento do Maçom, mas um fim mesmo da Maçonaria, que se soma àquele. E a filantropia compreende desde a destinação do “tronco de beneficência” (ou “tronco de solidariedade”, arrecadação voluntária com viés humanitário realizada em todas as reuniões) até a consecução de projetos mais arrojados, como manutenção de hospitais e abrigos de idosos, arrecadação de alimentos e vestuário, etc. Assim sendo, não faz filantropia quem pede aos Irmãos para reforçar o tronco para pagar o banquete que se seguirá a uma cerimônia de ingresso em qualquer dos graus do Simbolismo…

E aquelas Lojas mais humildes, composta por Obreiros de pequena projeção econômica e pouca fama e que contribuem com a humanidade através de sua exígua coleta do “tronco”, têm valor inferior ao das poderosas Oficinas que mantêm instituições filantrópicas? Lógico que não, desde que o fim do aperfeiçoamento moral dos seus membros seja realizado, desde que o salutar convívio lhes torne homens mais religiosos (muito embora a Ordem não seja uma religião). Nesta seara, mais vale o servidor sapateiro a o empresário caloteiro (e leia-se a parábola da viúva pobre, Mc 12, 41-44!).

E pouco resta de socialmente útil à Loja cuja filantropia é ínfima ou inexistente e cujos membros ademais se digladiam em lutas fratricidas por cargos, na ânsia de mostrar aos não iniciados seus novos e vistosos paramentos e medalhas. Estes geralmente são os pais das dissidências, sempre que o seu número na Oficina é superior à disponibilidade de cargos “vistosos”, pois nunca se contentam com uma Hospitalaria ou Harmonia, por exemplo. Que interesse leva alguém assim a ingressar na Maçonaria? Para responder a essa pergunta, recorra-se à sabedoria primordial da autêntica Kaballah.

De acordo com os cabalistas, a essência do corpo é somente um desejo de receber para si mesmo e todas suas manifestações e posses são preenchimentos dessa vontade de receber, pelo que identificam no ser humano três tipos de desejo. O primeiro é o desejo dos instintos, limitado à satisfação dos apetites do corpo. Em segundo vem o desejo de respeito e dominação sobre outros. Por terceiro, temos aqueles cuja vontade de receber é intensificada pela aquisição de conhecimento. Cada pessoa possui em si os três desejos – sendo que um deles em excesso –, os quais se misturam em diferentes quantidades, dando origem à diversidade de qualidades, daí a diferença de comportamento de uma pessoa para outra. Segundo os sábios judeus, estes três desejos devem ser substituídos pelo prazer da doação, pelo qual o indivíduo é então preenchido pela luz do contato pleno com o Criador.
Os “maçons” problemáticos geralmente são ornados de três “nobres” desejos: a) de poder destinar o caixa da Loja para bebedeiras, b) de títulos para se vangloriar frente aos não iniciados e Irmãos que ainda desconhecem suas arestas não aparadas; e c) de expor a (presumida) ampla gama de conhecimentos para se arvorar na posição de mais sábio e preparado do atelier; conveniente lembrar que, infelizmente, os eruditos maçônicos são minoria, já que o hábito de estudar a Ordem não é um forte dos Obreiros da terra brasilis: em entrevista ao “A voz do Escriba” de novembro de 2011, o Irmão Wagner Veneziani Costa, proprietário da Madras Editora, perguntado sobre o hábito da leitura por parte dos Maçons, afirmou que a linha de livros maçônicos é a menos vendida de sua empresa, porém disse que tem “esperanças de que essa realidade venha mudar, principalmente com essa renovação dos Eminentes Grão-Mestres Estaduais que foram eleitos [do GOB]” (BRAGA, 2011, p. 21). Essa triste realidade vem de longa data: no início dos anos 1980, o Irmão Rizzardo da Camino (1982) já alertava da falta de estudo maçônico por parte dos Irmãos brasileiros. Ou seja, quanto menos eruditos realmente sábios (de mente e de coração), mais os verborrágicos se acreditam a elite letrada da Ordem e buscam manipular os incautos!

Quanto à exacerbada demonstração de erudição, as ordens iniciáticas autênticas são enfáticas ao prevenir o buscador de que a mera apreensão de conhecimentos é inútil à alquimia interior, ou seja, não torna novo, o velho homem (Cl 3,9 e 10). Vanitas vanitatum seria então a explicação mais adequada ao comportamento dos “goteiras de avental”, ao tempo em que as lições transmitidas pela Maçonaria são inúteis quando as paixões são superiores ao homem, indo o pretenso “maçom” contra um dos princípios basilares da Ordem, qual seja, o da prevalência do espírito sobre a matéria. Neste norte, Santo Agostinho (XIII Livro, 21, 30.) é enfático ao afirmar que:

A vaidade soberba, os prazeres libidinosos, a curiosidade venenosa são a paixão da alma morta. Esta não morre a ponto de perder totalmente o sentido, mas morre, afastando-se da fonte da vida e é arrebatada pelo mundo que passa e com o qual se conforma.

Em síntese, quem age em desacordo com os princípios da Ordem está apenas perdendo tempo e dinheiro, não está evoluindo. Nenhuma farsa dura para sempre e o duro golpe da execração pública se dará explicitamente ou através dos comentários que antecedem a chegada e que perduram após a saída do vaidoso “maçom”. E para quem crê na imortalidade da alma, esta é a maior vítima, vez que nas palavras de Louis-Claude de Saint-Martin, “Há muitos que enganam a outros, mas maior ainda é o número dos que enganam a si mesmos.” (AMORC, 2012).

Despertemos enquanto há tempo!

Referências:
– AGOSTINHO, Santo. Confissões, 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
– AMORC. Pensamentos esparsos de Saint-Martin. In Práticas martinistas (CD). 2012.
– BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução de Padre Antônio Pereira de Figueiredo. Rio de Janeiro: Encyclopaedia Britannica, 1980.
– BRAGA, Jarice. A visão maçônica e democrática do Grão-mestre do Grande Priorado Irmão Wagner Veneziani Costa. In: A voz do escriba.
– DA CAMINO, Rizzardo. Simbolismo do Segundo Grau – Companheiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Aurora, 1982.
– GOB. Constituição do GOB. Brasília: GOB, 2009. Disponível em: . Acesso em: 14 ago. 2014.
– MONDIM, Batista. Introdução à filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. 16. ed. São Paulo: Paulus, 2006

Sobre o Autor

ARLS Obreiros da Paz nº 3285 - Oriente de Marizópolis • GOB/PB

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