Fala-se muito, nos templos maçônicos, sobre a participação da Maçonaria nos grandes acontecimentos mundiais no passado. É inegável a força e a influência que a Maçonaria teve no desenrolar destes eventos. Ouvimos Irmãos dizerem, com orgulho legítimo, que o papel desempenhado pela nossa Ordem foi fundamental na luta contra a tirania, os preconceitos e os erros. Revolução Francesa, Independência dos Estados Unidos, independência de países sul americanos como Chile, Bolívia e Argentina, Inconfidência Mineira, Confederação do Equador, Independência do Brasil, Abolição dos Escravos, Proclamação da República, dentre outros. O passado de glórias da instituição maçônica nos dá uma certa dimensão da sua força e da sua influência nas grandes causas da Humanidade. Também nos dá a responsabilidade, atualmente, pela continuidade dos ideais basilares da Ordem porque somos herdeiros das lutas travadas por Irmãos de elevada coragem. Trabalhemos, hoje, para que não se percam estas conquistas tão relevantes.

A Maçonaria passou por duas fases distintas: a Maçonaria Operativa, inspirada nas práticas das guildas medievais e a Maçonaria Especulativa, surgida a partir de 1717 em Londres, quando passou a aceitar membros que não eram artesãos de ofício. Neste período, influenciados pelo Ocultismo, Hermetismo e a Alquimia, os Aceitos incorporaram à Maçonaria os ensinamentos adquiridos nas Escolas de Sabedoria. Os Rituais foram criados, contendo muitos elementos simbólicos que guardavam os ensinamentos da vista dos profanos dotando, por sua vez, o Iniciado Maçom de farto material de estudos e profundas reflexões. Inaugurou-se a fase da Maçonaria Especulativa, em que a indagação filosófica ganhou corpo; as preocupações metafísicas foram discutidas; a real transmutação alquímica teve relevância, bem como os estudos do Antigo Testamento, da Cabala e da Numerologia. Uma fase rica em especulações nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Tudo isso foi fruto de uma época, pois, no século XVIII, notadamente na Europa, estes temas eram recorrentes nos círculos intelectuais. Não poderia ser diferente nos templos maçônicos.

A Maçonaria moderna, tal qual a conhecemos atualmente, tem 297 anos. Em 2017, vamos comemorar 300 anos e, nesse espaço de tempo, muita coisa mudou na face do mundo. Se, por um lado, a tecnologia, os saberes e os costumes sofreram grandes avanços; por outro lado, algumas mazelas do Homem ainda insistem em se perpetuar. Guerras, fome, violência desenfreada, desemprego, corrupção em todas as esferas, afrouxamento dos laços familiares, inversão de valores, sexolatria e toxicomania são apenas alguns exemplos dos males que nos afligem em nossos dias.

Mesmo diante desses graves problemas, em nossas Lojas não há discussão ou engajamento para tentar formular algumas soluções. Ocupamos o momento da sessão destinado à palavra a bem da Ordem em geral e do quadro em particular para “justificar” ausências; parabenizar o Irmão pela “brilhante peça de arquitetura” no Tempo de Estudos; comunicar a ausência na próxima sessão ou relatar algum incidente cotidiano. Nenhuma proposta, projeto ou campanha; nenhuma ação efetiva que tire os Irmãos do sono letárgico em que mergulharam. Estamos adormecidos.

No entanto, nas datas cívicas, relembramos os feitos do passado da Maçonaria. Enaltecemos a coragem dos Irmãos que lutaram bravamente contra a tirania e nos rejubilamos com o pretérito glorioso da nossa Ordem. Enquanto isso, o mundo ao nosso redor desmorona diante de tantas tragédias. A corrupção e a falta de ética dos políticos e dos gestores, subtraindo nossas esperanças de uma vida digna; a violência epidêmica que infesta as nossas cidades, ceifando vidas e tirando-nos a paz; os recursos naturais sendo devastados em nome da ganância e da busca predatória do lucro, com custos ambientais altíssimos, principalmente na região amazônica; a biopirataria feita por países que retiram de nossas terras, a riqueza que a natureza abundantemente nos ofertou; a inversão de valores morais, com o enfraquecimento dos laços familiares e a desintegração da própria família. Sem falar no fantasma do totalitarismo político que nos assombra.

Temos muitas frentes de batalhas. Temos muito com o que nos preocupar. Hoje, não se exige dos maçons que peguem em armas para destituir tiranos, a exemplo da Revolução Francesa e da Conjuração Baiana de 1798, só para citar algumas revoltas. Nossas armas são as ideias, o verbo transformador, o comprometimento com causas nobres e a conscientização da população, mostrando que a mesma possui a força para transformar a realidade. A Maçonaria abriga em seus quadros homens de diversas profissões. Do eletricista ao senador da República, passando por médicos, advogados, professores, artistas, juízes, vendedores, comerciantes, militares, enfim, pessoas que têm poder de influência no meio em que atuam. A Maçonaria é forte. Fraca é a nossa vontade de utilizar essa força em prol das grandes causas ou em combater os problemas que afligem o ser humano. Historicamente, a Maçonaria influenciou os movimentos da humanidade, de dentro pra fora. Eram nas sessões das Lojas que as discussões e deliberações aconteciam para, depois, ganharem as ruas. A crise no mundo atual está tentando inverter até esse movimento secular. Observa-se uma infiltração das práticas mundanas, inundando os nossos templos, trazidas por Irmãos invigilantes que insistem em implantar as piores práticas da política ordinária. Querem profanar os nossos templos sagrados, movidos pelo personalismo, pela ambição e pela vaidade.

Ao Aprendiz Maçom, espera-se que viva em união com os seus irmãos; ao Companheiro, que aprume a sua conduta na retidão das ações e ao Mestre, que vença em si mesmo o dragão da vaidade que incinera todas as boas obras.

Em tudo que a compõe, a Maçonaria traz ensinamentos que devem ser alcançados pelo estudo sério e dedicado. Nosso desiderato é o progresso individual para proporcionar os meios para atingir o progresso coletivo, e as ferramentas para tal fim são as ações positivas, trabalhadas com persistência, inteligência e vontade firme. O papel social da Maçonaria deve ser exercido com destemor, assim como deve ser a atitude dos maçons diante dos problemas que ameaçam a todos. Nenhuma honra nos aguarda se a indiferença é a prática que elegemos para não nos comprometer com o trabalho de retirar os obstáculos do caminho. Que o passado glorioso da nossa Sublime Ordem nos orgulhe e nos inspire a continuar lutando contra os males que nos afetam, porque outros sãos os tempos e outras são as batalhas. Afastemos de nossas Lojas o comodismo e a inércia diante de problemas tão sérios que exigem de nós esforço concentrado para a busca de soluções imediatas. Trabalhemos juntos por um mundo melhor para todos e para que os Iniciados que nos sucederem sintam o mesmo orgulho que sentimos dos Irmãos que nos antecederam.

Agindo assim, não correremos o risco de sermos conhecidos como a geração de maçons que inaugurou a desairosa fase da Maçonaria Contemplativa, que apenas assiste às coisas acontecerem.

Álvaro Mendes nº 2139
GOB/PI
Oriente de Teresina

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ARLS Caridade II nº 0135 GOB/PI Oriente de Teresina

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