Na iniciação ao Grau de Aprendiz Maçom, após as viagens que realiza no interior do Templo e no transcorrer das quais será purificado, o iniciando é conduzido novamente ao Altar, diante do qual deve ratificar suas obrigações, após o que, o Venerável Mestre, com a espada flamejante apoiada sobre a cabeça daquele, consagra-o, seguindo-se os golpes do Grau (que, não sem propósito, remete à sagração dos cavaleiros medievais).

Em seguida, o iniciador faz com que o neófito se levante e abraça-o, dando-lhe, pela primeira vez, o título de Irmão e dizendo, ao cingir-lhe o Avental, que a alfaia é a mais honrosa de todas as condecorações porque é símbolo do trabalho, primeiro dever do homem e fonte de todos os bens.

Tamanha a importância do Avental no simbolismo maçônico, que logo o Aprendiz descobrirá que alguns objetos podem ser alterados/suprimidos e até o próprio ritual pode sofrer sensíveis modificações, porém o Avental não muda e sequer o Maçom pode ingressar no Templo sem estar com ele vestido, bem como só pode tirá-lo após encerrada a sessão e fora do recinto de trabalho.

Na Tradição Primordial, por seu turno, encontra-se a espada (emblema do magistério) e o Avental (emblema de serviço) em Gênesis 3, 21-24, onde consta que o Eterno fez túnicas de pele para Adão e sua mulher e os vestiu. E depois de os expulsar do Jardim do Éden “para que trabalhassem a terra” posicionou no Oriente daquele lugar santo, querubins, que exibiam uma espada flamejante, “para custodiar o Caminho da Árvore da Vida”.

É evidente que as túnicas de pele às quais aqui se faz menção simbolizam o corpo físico do homem, do qual se reveste a consciência individualizada (Adão) e seu reflexo pessoal (sua mulher) ao serem enviados do estado de beatitude edênica (o mundo mental ou interior) para a superfície da terra (realidade objetiva) para trabalhá-la, ou nela expressar suas qualidades divinas. Neste ponto, observe-se que a nudez do primeiro homem é designada na tradição esotérica pela palavra gharoum, do árabe ghoram, que significa “osso desprovido de carne”, ao passo que a raiz hebraica ghatzam significa “uma força, uma virtude”, o que em síntese demonstra que o estado de nudez de Adão consistia, na verdade, no fato de que ele ainda não fora dotado pelo Criador de um corpo físico.

Nos antigos mistérios, o Avental branco de pele de cordeiro ou linho simbolizava a pureza de propósitos nos procedimentos em busca da realização dos ideais, sempre acompanhado por um cinto, corda ou cordão para cingi-lo ao corpo na altura dos rins. Este cordão representava o elo de ligação do iniciado com seu iniciador e deste com os precursores, numa cadeia ininterrupta oriunda do plano transcendente à matéria e ao tempo.

Outras correntes apontam o surgimento do Avental à época das guildas e corporações medievais. Tais associações, que deram origem à Maçonaria Operativa, tinham por hábito distribuir entre seus Membros, aventais para o exercício do ofício ao qual estavam ligados, os quais apresentavam entre si diferenças tênues conforme o ofício em questão, sendo predominantemente confeccionados em couro de carneiro e com espessura adequada para proteger os obreiros de labutas, por vezes perigosas para o corpo.

Observe-se ainda, que a peça se prolongava do pescoço até o abdômen para o Aprendiz, sendo menor o do Companheiro, vez que este último já possuía maior habilidade com as ferramentas e materiais de trabalho, consequentemente demandando menor proteção.

Com a transição da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa, o Avental e sua função foram, paulatinamente, se alterando. Historicamente, a Grande Loja da Inglaterra fixou o Avental branco, de pele de cordeiro, mas com o tempo as lojas especulativas ao redor do orbe passaram a ornar os aventais com borlas, joias, dentre outros ornamentos, sendo que os taus invertidos surgiram por volta de 1800, as rosetas por volta de 1815 e as franjas entre 1827 e 1841.

Sob o enfoque da mística maçônica, a explicação esotérica mais corrente e coerente quanto ao uso da abeta levantada, ainda hoje é a de que na Antiguidade se acreditava que a sede das emoções humanas era o epigástrio (“boca do estômago”) e com a abeta levantada o Avental do Aprendiz cobre essa região, garantindo que suas emoções não conspurquem deleteriamente os trabalhos da Loja e a espiritualidade das sessões. Para alguns autores, o Avental de Aprendiz revela ainda a relação entre o ternário espiritual e o quaternário material, formando o número sete, perfeito. Quando seu aperfeiçoamento ensejar a elevação de Aprendiz a Companheiro, o Maçom estará, então, apto a controlar as suas paixões e poderá usar a abeta abaixada.

Especulativamente, relacionando o uso do Avental com os chacras (do sânscrito shakra, “roda”, centros energéticos situados na mesma região dos plexos), observa-se que a peça é fixada sobre a região dos chacras raiz (também chamado de fundamental ou básico, localizado na região do aparelho genital), esplênico (baço, rins, fígado, pâncreas e suprarrenais) e umbilical (estômago, intestino e todos os órgãos do aparelho digestivo), como um meio de nos proteger das energias inferiores. Tem, pois, o Avental, a função de diminuir as influências dos sentidos em relação ao sexo e às paixões emocionais, expondo e ativando os chacras cardíaco (para aprimoramento dos sentimentos), laríngeo (para impulsionar a criatividade) e frontal (que estimula o raciocínio).

O Avental que recebe e com o qual se reveste todo Maçom é, pois, um emblema do próprio corpo físico de que foi dotado para sobre esta terra laborar (prover o sustento material) e orar (prover o alimento espiritual), daí a palavra laboratório. O homem veio também para orar: o verdadeiro Maçom não deve esquecer da importância da oração e da meditação, como bem asseverou o Mestre Jesus, o Grande Iniciado que batizava em fogo, para quem “Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus!” (Mt.4,4).

A percepção desse Avental, ou túnica de pele, como simples traje ou envoltório exterior e transitório, assim como da essência de nosso próprio ser, é consequência da visão espiritual que se obtém pela busca da Luz, desde o Ocidente dos Sentidos ao Oriente da Realidade.

Todavia, o progresso espiritual não deve nos conduzir a descurar da matéria, por ser o veículo físico de que nossa alma se reveste, parte integrante e necessária do nosso aprendizado, sendo as vicissitudes que lhe são imputadas, necessárias à perfeita manifestação do homem na vida terrestre, mediante a qual deverá ir se aperfeiçoando, desbastando a pedra bruta, visitando o interior da terra em busca da pedra oculta que lhe proporcionará a existência divina.

Bibliografia:

– LAVAGNINI, Aldo. Manual do Aprendiz Franco Maçon. Disponível em Acesso em 15 nov. 2012.
– O Avental. Disponível em: > Acesso em 15 nov. 2012.
– SANSÃO, Valdemar. Aventais maçônicos. Disponível em < http://www.masonic.com.br/trabalho/vs02.pdf > Acesso em 15 nov. 2012.
– O Avental. Disponível em: http://www.revistauniversomaconico.com.br/simbologia/o-Avental/
– Francisco F. da Fonseca. Os Chacras. Disponível em:
Acesso em 15 nov. 2012.
– QUEIROZ, Álvaro de. Os símbolos maçônicos: Aprendiz, Companheiro, Mestre. São Paulo: Madras, 2010.

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